:::::: PRONUNCIAMENTOS E DISCURSOS
02 de Dezembro de 2002
Pronunciamento do Vice-Presidente da República eleito, senador
José Alencar, na reunião do Conselho Diretor da CACB,
em 21 de novembro de 2002, em Brasília
" Meus amigos:
Naturalmente o ideal seria que pudesse responder a
todas essas colocações que foram feitas, não
só pelo presidente Luiz Otávio, da CACB, em nome de
quem eu quero saudar a todos aqui presentes, como também às
colocações feitas pelo Dr. Omar Carneiro da Cunha, que
abordou assuntos da mais alta relevância, motivos de preocupação
das classes produtoras do Brasil. Quero cumprimentar o Dr. Sérgio
Moreira, presidente do Sebrae nacional e ao meu eminente amigo, Guilherme
Afif Domingos, com quem trabalhamos na época em que ele foi
candidato à presidência da República.
Gostaria de dizer que essas entidades são ecléticas
e não têm necessariamente que ser associação
comercial , industrial, agroindustrial, nada disso. Associação
comercial já é abrangente e congrega todas as atividades
desde o setor primário passando pelo secundário e chegando
ao terciário. Muita gente pensa que ela só representa
os comerciantes, o que é um equívoco. Acho que uma das
formas de prestigiar a entidade é denominá-la como Associação
Comercial, sem nenhuma ramificação.
Eu fui presidente de uma associação
comercial na minha terra, Ubá. Quando fui para Belo Horizonte,
em 68, eles mudaram e colocaram Associação Comercial
e Industrial de Ubá, então eu perguntei ao presidente
por que fizeram isso. Responderam que em Ubá, antigamente havia
mais comércio de fumo, depois veio a indústria de imóvel
e nós tínhamos que acolhê-la. Eu perguntei se
o setor de imóveis já não era da associação
comercial. Era, mas trocaram o nome para homenageá-los e eu
não concordo com isso.
Em 1958 eu fui ao Rio representando a Associação
Comercial de Caratinga, num congresso presidido pelo saudoso Rui Gomes
de Almeida, que foi também presidente da Associação
Comercial do Rio de Janeiro e era o presidente nato da Confederação
das Associações Comerciais do Brasil. Para aquele encontro,
além das associações comerciais das capitais
foram também convidadas as associações do interior.
Nos reunimos lá por três dias, e ao final levamos um
memorial ao Palácio das Laranjeiras, para ser entregue ao presidente
Juscelino Kubitschek.
Eu não esqueço que chegando ao Palácio
das Laranjeiras Juscelino desceu, cumprimentou cada um de nós,
depois parou em frente a Rui e disse: O que está havendo Rui?
Então Rui disse: Presidente, nós estamos reunidos para
trazer esse memorial para o Senhor com os pontos que são objeto
de preocupação da classe empresarial do Brasil. Eu gostaria
que o Senhor falasse com cada presidente de comissão, porque
eles vão dar um resumo do que está nesse memorial.
Estou vendo aqui o presidente da Associação
Comercial de São Paulo, meu xará, Alencar. Era presidente
de São Paulo, na época, Emílio Lang Júnior,
e lhe foi dada a palavra porque ele presidiu uma das comissões
prévias que acabaram constituindo um memorial sobre o IBC.
Uma das preocupações com o IBC é que ele desestimulava
os exportadores de café. O Juscelino anotou tudo aquilo, e
disse que o SACS (restaurante popular daquele tempo) estava fazendo
concorrência ao setor privado. Outro problema eram tarifas aduaneiras,
outro era a unificação da assistência social dos
institutos, porque naquele tempo era IAPC, IAPI, IAPD e IAPETEC, e
nós queríamos que do ponto de vista de assistência
médica houvessem hospitais que atendessem a todos os institutos.
Fomos, assim, meio precursores da unificação dos institutos,
nesse particular.
O Juscelino ouviu a cada um com atenção
e depois respondeu a todos de forma admirável, da seguinte
maneira: sobre o IBC disse que quando estava fazendo a campanha para
presidente da República ouviu muitos discursos à respeito
do IBC, alguns eram a favor, outros contra, então quando assumiu
contratou dez técnicos, uma comissão para falar sobre
o IBC e lhes deu 60 dias de prazo. Ele citou alguns nomes e o pessoal
do café concordava com a qualidade daqueles nomes. No final
dos sessenta dias eles pediram mais sessenta e no final cinco estavam
a favor do IBC e cinco contra. Então passamos para outro assunto,
tarifas aduaneiras. O Juscelino respondeu todas as questões
que foram postas e nós saímos de lá com uma satisfação
muito grande porque ele nos recebeu com uma hospitalidade maravilhosa
e respondeu a todos os itens . Depois que nós voltamos descobrimos
que ele não tinha respondido a item nenhum, de maneira que
se, eu puder imitar o Juscelino aqui com vocês já estarei
fazendo alguma coisa.
Mas a verdade é que existem algumas questões
que nós não podemos deixar de colocar em ocasiões
iguais a esta, porque aqui está todo o Brasil representado,
com 27 presidentes de associações comerciais e o presidente
da Confederação das Associações Comerciais
do Brasil. É uma grande honra para mim ser convidado para participar
dessa reunião.
Fomos eleitos eu e Lula, mas a eleição
é fácil, agora nós temos que ser primeiro diplomados
para depois tomar posse. Aí sim, poderei ser mais útil
à vocês. Mas quero dizer que o meu gabinete na Vice-Presidência
estará aberto às associações comerciais
do Brasil inteiro, em tudo que puder ser útil à causa
eu estarei presente. Sei que as associações comerciais
não têm verbas fiscais e trabalham naturalmente com dificuldade,
algumas têm uma renda especial porque operam serviços
como o SCPC. As que não operam esse serviço têm
uma receita muito pequena. É uma coisa que tem que mudar, porque
a associação comercial é uma entidade importantíssima,
ela representa todos os segmentos da produção no Brasil.
O comércio também é produção.
O Rui Gomes de Almeida nos ensinou numa daquelas reuniões
de 1958 que nós não nos denominássemos representantes
das classes conservadoras, e passássemos a nos denominar de
classe produtora. Isso é uma coisa que nós devemos fazer.
Agora vamos entrar em alguns pontos que acho importantíssimos.
Primeiro, foi muito falado aqui sobre importância da micro e
pequena empresa. Eu acrescentaria a micro, pequena e média
empresa, porque a média empresa no Brasil tendo em vista o
empobrecimento da economia brasileira, em relação a
outros países elas são pequenas, e algumas até
abaixo de pequenas, ainda que sejam médias. Grandes empresas
no Brasil são médias em outros países então
nós temos que alcançar um número maior de empresas.
A micro, pequena e média empresa no Brasil alcança uma
representação muito grande na economia do país,
em todos os segmentos.
Muita gente começa a confundir economia com
economês. Conceito de economia, por exemplo, é déficit
em transações correntes, superávit primário,
superávit adjetivado. Esse adjetivo põe em dúvida
o superávit, porque se fosse superávit não precisaria
ser adjetivado e de fato não é porque cobre 40% do déficit
nominal. Os outros 60% se aclopam à dívida, então
a rigor o governo não tem respeitado a própria lei de
responsabilidade fiscal, porque o orçamento é deficitário
por causa da rolagem das dívidas. Nós não podemos
apresentar um balanço de rolamento de nossas empresas escondendo
o custo financeiro que pesa sobre as nossas dívidas. É
muito comum dizer que o balanço é bom mas com esse juros
aumenta o custo financeiro. Só que a dívida é
sua, você fez a dívida, então a despesa financeira,
na rubrica de despesa operacional, da mesma forma por analogia, temos
também que exigir que do orçamento participe o custo
financeiro.
Nesse dia, provavelmente, os administradores das finanças
do Brasil acordem para o que representa o custo financeiro por sobre
a economia brasileira. Economia é uma força representada
pelo setores primário, secundário, terciário
e infra-estrutura. A economia de qualquer país é representada
por esses componentes básicos que representam a agricultura,
pecuária, mineração, atividades do setor primário.
Na economia estão as atividades industriais, de comércio,
turismo e de serviços, assim como as empresas ligas à
infra-estrutura, como as de energia elétrica, transporte, comunicação.
Empresas minúsculas, por exemplo, como uma
pastelaria da esquina é uma fração da economia,
ela está abaixo de micro, mas é importante porque é
uma fração da economia que está localizada no
setor secundário. Da mesma forma um cidadão que tem
cinco hectares de terra e trabalha com a própria enxada nunca
vai dizer que é um empresário, mas ele é, e aquilo
é uma empresa minúscula do setor primário. Há
as empresas médias, as grandes e as gigantescas, como a Petrobrás.
A empresa é importante não porque paga imposto e gera
imposto, é claro que é importante por isso, mas antes
ela é importante porque é uma fração da
economia e a economia precisa ser forte, próspera e independente
para que se alcancem os objetivos sociais.
Isso porque o objetivo é o homem, a economia
é sempre meio. Não vem aqui o José Alencar ensinar
que empresa é importante, mas é que temos que colocar
essas questões para que saibamos onde estamos. Vamos nos situar
nesse grande organograma da economia brasileira para ver o nosso valor.
Temos um fator seríssimo que afeta o desenvolvimento
da economia brasileira porque afeta o desenvolvimento da pequena empresa,
que é o custo de capital e esse custo causa uma diferença
muito grande para o comércio exterior. Todos concordam que
temos que fazer crescer as nossas exportações, não
estamos crescendo em relação ao crescimento do comércio
internacional mas temos potencialidade para isso. Temos que corrigir
aquilo que impede que nós cresçamos como custo de capital,
infra-estrutura básica, logística e transporte.
Vejam como a economia brasileira é competitiva.
Transportamos soja do país inteiro para os portos por estradas
esburacadas e caras porque o transporte mais caro é o rodoviário.
Hoje eu disse a um deputado do Mato Grosso que além da fome
zero nós vamos ter um programa Buraco Zero. A velocidade comercial
dos transportes no Brasil é baixa, o que significa a exigência
de maior número de veículos para fazer aquele transporte
naquele mesmo trajeto. Ao invés de três viagens por semana
fazem duas, isso encarece o custo de transporte grandemente. Os Estados
Unidos e a Europa dão subsídios à produção
de soja mas o Brasil é competitivo sem esse subsídio,
pagando caríssimo por esse transporte, com o custo de capital
impossível de ser remunerado por qualquer atividade produtiva.
Isso tem que mudar mas ninguém vai mudar isso
com uma lâmpada de Aladim de uma hora para outra. Por exemplo,
o BNDES aplica cerca de 30 bilhões por ano no Brasil mas ele
não alcança a pequena empresa. A linguagem do BNDES
é a de um banco de fomento. Todos podem se candidatar a um
financiamento no BNDES mas precisa um estudo de viabilidade que custa
caro para fazer porque um pequeno empresário não pode
comprar esse projeto.
Como é que nós poderíamos fazer
para que o pequeno empresário tenha acesso ao BNDES, com recursos
de longo prazo e a custo compatível com a atividade produtiva?
Tem jeito. Nós podemos, por exemplo, fazer com que o BNDES
tenha braços no Brasil inteiro, em cada capital, e que transforme
esse projeto num questionário, qualquer um bom técnico
sabe fazer isso. Esse questionário vai virar um projeto, na
primeira página dele é um cadastro, não só
um cadastro do ponto de vista de cadastro pessoal como também
empresarial em termos de respeitabilidade empresarial. Ele é
um pequeno fabricante de calçado, é um pequeno fabricante
de camisa ou então é um produtor rural, um comerciante,
que precisa ampliar o seu negócio.
Ele tem um projeto na cabeça, sabe o que precisa
fazer para melhorar a casa comercial dele se candidatando a um empréstimo
do BNDES não com prazo de carência, de amortização,
com taxas de juros parecidas com as que são trabalhadas nos
grandes projetos. Isso pode ser feito. Vamos faze um cálculo
rápido aqui, de 10%, seria algo parecido com 3 bilhões
por ano para contemplar a pequena empresa. Vamos admitir para efeito
de raciocínio, cem mil reais, que para uma pequena empresa
a longo prazo é uma alavancagem espetacular. Mas pode ter projeto
de R$ 500.000. É possível que o crédito chegue
e dê independência. Há uma experiência em
Bangladesh, o Banco do Povo que empresta pouco dinheiro mas o suficiente
para os pequenos negócios.
Os grandes empreendimentos são aqueles que
se caracterizavam antes como atividade de mão-de-obra intensiva
como é o meu caso hoje, de industrial têxtil, mas com
o avanço da tecnologia e capital intensivo a mão-de-obra
é pequena ou nula, as máquinas fazem tudo. Então
as pequenas empresas se caracterizam como empresas que oferecem mais
oportunidades de trabalho.
Vamos fazer aquela continha prática, vamos
dizer nós temos aí cinco mil e tantos municípios
e fazer idéia de seis fabriquetas dessas em cada município.
Isso abre uma perspectiva extraordinária, mas é claro
que o BNDES vai dar orientação de características
regionais e setoriais para cada região porque o Brasil é
um país muito grande.
Para melhorarmos nossa qualidade de exportação
vamos ter que mexer também no sistema tributário que
se transformou num verdadeiro cipoal burocrático que entrava
o desenvolvimento e tem onerado muito as exportações
tendo em vista a existência dos impostos em cascata como o PIS,
COFINS. O CPMF também é um imposto em cascata. O pior
é que nas importações não há esta
cascata, facilitamos as importações onerando uma carga
menor, é um processo inverso. Isso também tem que mudar.
Alguém falou em participação
e não é participação, necessariamente,
em ministério, como falou muito bem o presidente Luiz Otávio.
O Lula fez uma palestra na CNI como candidato, lhe fizeram uma pergunta
sobre reforma tributária ele disse: reforma tributária
cada um de nós tem na sua cabeça, e é verdade.
Então ele não falou isso, mas eu posso dizer a vocês
que há dois caminhos, um é o caminho que o saudoso Dr.
Roberto Campos chamava de caminho eletrônico, que é aquele
imposto único que o Domingos Afif defendia quando foi candidato
e depois o Flávio Rocha defendeu, que é uma idéia
do atual deputado Marcos Cintra.
O Marcos Cintra tinha um projeto de imposto único
que acabou se transformando nessa CPMF, e só não é
IPMF porque se fosse tinha que pagar aos estados a participação
deles, estados e municípios. Sendo contribuição
não é devida aos municípios mas é imposto
cruel também. Pagamos porque o brasileiro é relaxado,
saímos de uma inflação muito grande, não
damos valor a pequenas parcelas que são debitadas nas nossas
contas.
Temos que fazer a reforma tributária, mas acho
muito difícil porque o problema no Brasil é uma discussão
que não acaba. O interesse federativo de cada Estado vai falar,
cada Município maior vai falar e também obviamente o
interesse ligado a todas as atividades, então isso é
uma discussão muito grande dentro do Congresso Nacional, e
vai ser muito difícil aprovar uma reforma tributária
dentro do caminho eletrônico de que falava Roberto Campos.
Às vezes é melhor copiar bem do que inventar
mal. No caminho clássico há três impostos básicos,
que são impostos arrecadadores, um deles indireto e dois diretos.
O indireto ele pode vir com qualquer nome, pode vir com o nome de
imposto sobre o valor agregado, pode vir com outros nomes, mas ele
será sempre imposto de consumo, imposto indireto, e os outros
dois são impostos diretos, um deles o imposto de renda e o
outro imposto sobre propriedade.
O imposto de renda se subdivide em imposto pessoa
física e imposto pessoa jurídica e o imposto sobre propriedade
também se subdivide em propriedade rural e urbana. Esses são
os três impostos arrecadadores de qualquer país. O Estado
não pode abrir mão de um imposto que não tem
necessariamente o objetivo de arrecadar, ele é mais um instrumento
de administração. O IOF é um instrumento de administração
monetária, através da aplicação do IOF
o governo pode até controlar a expansão de meios de
pagamento. Isso também não afeta a vida do empresário
e o governo precisa desse imposto.
Outro é o imposto de comércio exterior,
também como instrumento de administração, que
poderia ser simplificado, assim como as tarifas aduaneiras, que o
governo tem flexibilidade até para acabar com qualquer tipo
de tarifa. Por exemplo, não deu milho no Brasil, tem que haver
importação de milho então não tem sentido
onerar esta importação. Da mesma forma, ao contrário,
ele tem que elevar essa alíquota quando a produção
de milho for superior à demanda interna, então isso
é um imposto que significa instrumento de administração
de comércio exterior. Além disso são as taxas
que não são impostos, muita gente faz confusão
de imposto com taxas, taxas de água, taxa de luz ,taxa de esgoto,
taxa até de cemitério.
Da mesma forma há também os encargos
sociais que são pesadíssimos no Brasil. O problema da
Previdência é sério. A reforma da Previdência
não pode mais ser adiada. Terá que nascer uma Previdência
nova, unificada, para que daqui para a frente todos fiquem sob ela.
Com relação à desoneração
das exportações temos realmente de fazer algum investimento
ligando a infra-estrutura básica, especialmente de logística
de transporte, cuidando das ferrovias e hidrovias e recuperando a
navegação de cabotagem no Brasil. Temos oito mil quilômetros
de costa, este é o transporte mais econômico e não
o estamos utilizando.
É uma coisa fantástica o que há
no Brasil em potencialidade de desenvolvimento, mas é preciso
que o governo cuide da estabilidade monetária tendo o Banco
Central como guardião da moeda.
Muito obrigado a todos".