:: Política e Políticos

                                                                     CPIs incomodam governos


                                                                                                             Por JOSÉ FONSECA FILHO


Todos os governos afirmam, obviamente, combater a corrupção com rigor e por todos os meios possíveis, com a participação do Ministério Público, Polícia Federal e demais setores investigativos. Mas, nenhum Governo, nos últimos anos, deu apoio à apuração de uma CPI para investigar irregularidades constatadas na área administrativa, com ligações políticas com o Governo. É o caso atual dos Correios, quando um funcionário foi filmado recebendo propina – que depois diria tratar-se de pagamento adiantado por um serviço de consultoria.
Imaginam essas pessoas que os brasileiros não passam de um bando de idiotas. Os fatos se tornaram conhecidos da opinião pública e a CPI foi instalada com dificuldades, pois o Governo do PT, patrocinador de inúmeras CPIs contra o Governo de Fernando Henrique Cardoso, lutou até o final para evitar sua constituição. Sob o mesmo argumento de sempre: a Polícia Federal já está investigando. O objetivo seria o de criar uma questão política e, paralelamente, provocar a antecipação do debate sucessório. A CPI seria, portanto, instrumento desnecessário para investigação de casos de corrupção. Serviria apenas para exploração política.
De que vale, então, o instituto da CPI, hão de perguntar os brasileiros. Invertidas as posições, exatamente o mesmo acontecia no Governo de Fernando Henrique. PSDB e PT não são parecidos apenas na condução da política econômica, com Malan e Palocci mais afinados com as orientações do FMI do que com a necessidade de desenvolvimento do país. Nesse aspecto, não houve alterações, senão de matiz, entre os dois governos que hoje se digladiam, assim como em relação à CPI.
No entanto, o instituto da CPI foi criado para possibilitar a participação do Legislativo, ou seja, da sociedade, na investigação de irregularidades e casos de corrupção que lhes dizem respeito, visto tratar-se de governo eleito pelo povo. A Polícia Federal pode cumprir seu papel, e o tem feito muito bem, mas não significa que tenha exclusividade. Quando o Governo Lula, como fazia antes o de Fernando Henrique, desenvolve grande esforço para evitar a CPI, fica no ar a suspeita de pretensão de defesa de alguma maracutaia. Pois, já diz o ditado popular: “se não devem, não temem”. Ou temem?
Num detalhe os dois governos têm razão. Os trabalhos da CPI podem desviar a atenção do Governo, das oposições e da opinião pública dos temas administrativos, políticos e que afetam a sociedade para as refregas que acontecerão no âmbito da CPI. Especialmente quando um Governo tem poucas obras a apresentar, como no caso atual do PT. Mas se trata de um fato positivo: o país está interessado em acompanhar as investigações e a conseqüente, se houver, punição dos corruptos. Os Correios, uma das maiores empresas brasileiras, não pode ter sua renda à mercê de espertalhões, políticos ou não.
Os argumentos apresentados pelo PT contra a formação da CPI estão em desacordo com a pregação histórica do partido. E o PSDB, hoje na ofensiva, deve cumprir seu papel sem esquecer que teve comportamento semelhante durante o Governo Fernando Henrique: ambos contra as CPIs.
Eduardo Suplicy, único senador petista a assinar o pedido de abertura da CPI, assistiu a uma sessão inteira do Senado só com críticas de seus companheiros à sua decisão. Condenaram, os petistas, quem teve coragem de se comportar de acordo com sua consciência. Os tempos e os hábitos estão mudados. Para pior.

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