:: Entrevista III  

Com os olhos no desenvolvimento

Antonio Carraro, da ABDE, afirma que é preciso reduzir o peso da dívida pública e, sobretudo,
do risco Brasil, principalmente por meio das reformas tributária e do judiciário

                                                                                                                   por SABRINA PASSOS


Diretor Executivo da Associação Brasileira de Instituições Financeiras de Desenvolvimento – ABDE – entidade com sede no Rio de Janeiro e que tem o lema de servir ao desenvolvimento, Antonio Carraro fala com exclusividade à Empresa Brasil sobre concessão de crédito, juros e sobre programas (e intenções) do Governo quando o assunto é desenvolver o país, a partir do fomento de acesso ao crédito. Economista, formado pela Universidade de Zurique, Suíça, com estudos de pós-graduação em economia internacional na Universidade de Genebra, também naquele país, trabalhou como pesquisador no Instituto Battelle, em Genebra, na área de modelos de previsão econômica. Quando voltou ao Brasil, na década de 1980, foi pesquisador no IPEA/Ministério do Planejamento e no Ministério da Industria e do Comércio, onde exerceu o cargo de Diretor do INMETRO e membro do Comitê de Barreiras Técnicas ao Comércio junto ao GATT (hoje Organização Mundial do Comércio – OMC). Além disso, Carraro atuou também como consultor de organismos internacionais, como o Projeto das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD – e a Organização dos Estados Americanos – OEA –, antes de integrar a ABDE, primeiramente como consultor econômico e, desde 2000, na diretoria executiva.


Empresa Brasil Há muita preocupação, por parte dos empresários, quando o assunto é concessão de empréstimo. Qual sua opinião sobre isso?

Antonio Carraro A preocupação é justificada, mas a situação não é homogênea entre as empresas. Sabemos que as grandes corporações não enfrentam dificuldades de acesso ao crédito. Neste momento, até mesmo o mercado financeiro internacional oferece condições atrativas, devido à grande liquidez. Os problemas começam para as empresas de médio porte e se tornam agudos para as de pequeno porte. Já as microempresas e os empreendedores informais encontram-se excluídos do mercado financeiro. Para estes, o crédito de fornecedores ou empréstimos de familiares e conhecidos é a única saída. É fácil imaginar as perdas potenciais decorrentes desta situação para o país, em termos de crescimento econômico, geração de emprego e renda, e toda a questão social relacionada a isso.

EB Como percebe o movimento de concessão de crédito realizado no Brasil? Hoje o acesso ao crédito é facilitado?

AC Inicialmente, é preciso lembrar algumas estatísticas. O crédito, no Brasil, é muito reduzido em relação ao volume da atividade econômica. A relação volume de crédito/PIB mal chega a 28% (computando-se a melhora deste último ano). Isto nos situa entre os piores no mundo, à frente apenas da Argentina, que sofreu um colapso financeiro. Nos países desenvolvidos, essa relação oscila entre 100% e 150% do PIB. O normal, para o nosso nível de desenvolvimento, seria algo em torno de 70%, como no Chile. Trata-se de uma grave deficiência, que compromete qualquer plano de desenvolvimento, pois os investimentos precisam de créditos para se concretizar. Hoje, apenas 50% do investimento anual, no Brasil, obtém financiamento. O resto tem que ser bancado por recursos próprios das empresas, que poderiam ser distribuídos como dividendos e atrair poupadores para o mercado de capitais. Vemos que a deficiência do mercado de crédito bancário acaba inibindo também o desenvolvimento do mercado de capitais.
Na raiz do problema encontra-se, é claro, a questão das finanças públicas. O setor público precisa financiar a dívida pública. Para isto, oferece altas taxas de juros (as maiores do planeta, em termos reais), e ainda concede garantias soberanas, isto é, risco zero. Nestas condições, fica difícil apelar para o altruísmo dos bancos para que façam empréstimos para pequenas empresas sobre cujos projetos existem poucas e fragmentadas informações e há percepção de riscos elevados, inerentes à atividade econômica.

EB Então, qual é a saída?

AC Não existe saída mágica para esta situação. É preciso reduzir o peso da dívida pública e, sobretudo, o chamado risco Brasil, por meio das reformas que estão na pauta do congresso, onde sobressaem a tributária e a do judiciário. Reduzindo o risco “sistêmico”, será possível baixar os juros, igualando a atratividade dos projetos privados ao retorno dos títulos públicos. Pode-se dizer que a direção das ações do Governo está correta, mas a velocidade deixa a desejar. A lentidão das mudanças no Brasil está nos cobrando um preço muito alto em termos de competitividade internacional.

EB Qual sua opinião sobre o microcrédito? Pode explicar como funciona o Programa Nacional de Microcrédito, do Governo Federal? É uma saída para os pequenos empresários?

AC O microcrédito é um instrumento valioso para levar crédito aos microempreendedores, tanto formais como informais. O que o diferencia do crédito tradicional é seu caráter artesanal, pois ele pressupõe o conhecimento detalhado da atividade econômica do cliente, para poder adaptar-se às suas necessidades. Isto o torna eficaz, mas também mais caro que o crédito tradicional, que é massificado e padronizado com o uso de parâmetros baseados em modelos estatísticos extraídos do comportamento de grandes grupos.
O Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado – PNMPO –, é uma Lei Federal que busca ajudar o setor do microcrédito, mas receio que seja um conjunto de medidas ainda insuficientes para fazer deslanchar o setor. Sua ênfase está no reconhecimento de novos atores de microcrédito (Agências de Fomento, Cooperativas de Crédito) e na liberação de recursos do depósito compulsório dos bancos, que podem ser canalizados para o setor. São incentivos ainda tímidos. Não se cogitou em reduzir a cunha fiscal da atividade, o que, a meu ver, seria mais eficaz para motivar os bancos a entrarem nesse mercado. O tabelamento das taxas de juros para o tomador final é outro problema: justifica-se, por serem recursos públicos, mas freia a atividade, que tem um alto custo operacional.
Outro problema do setor é a total dependência de recursos públicos. O que vemos em outros países (principalmente na Europa) é uma mobilização da sociedade que não se vê por aqui. Naqueles países, o Governo ajuda com subsídios e com a cessão de funcionários, mas as organizações não-governamentais conseguem obter recursos junto a investidores privados e ainda desenvolvem uma atividade lucrativa. Os custos são reduzidos com a participação do trabalho voluntário de pessoas aposentadas, que têm preciosa experiência empresarial para assessorar os novos empreendedores. Em resumo, precisamos explorar melhor o enorme potencial humano e de solidariedade que sabemos existir na sociedade brasileira.

EB Existem estratégias, por parte do Governo ou das instituições de fomento para aumentar a oferta de crédito no país?

AC O Governo não pode reduzir os juros ou o risco sistêmico da economia por decreto, como sonham muitos. Como já disse, a direção está correta, só que de forma muito lenta. Enquanto isso, o Governo vem tomando algumas medidas “paliativas”. Cabe citar o grande esforço de bancarização empreendido, com o PNMPO, a criação do Banco Popular do Brasil e o Programa da Caixa Econômica Federal. Com uma radical simplificação de procedimentos, milhões de brasileiros beneficiaram-se da chamada inclusão bancária, passando a familiarizar-se com conceitos até então inéditos para eles, como conta bancária, movimentação bancária, empréstimos, etc. O efeito didático disso tudo é enorme, e terá impacto no futuro. No curto prazo, não altera a oferta de crédito, por persistirem as razões já enunciadas. O que de fato alterou a oferta de crédito, nos últimos tempos, foi a modalidade de crédito consignado aos aposentados. Trata-se de um crédito de consumo, que tem sua importância. Sem dúvida contribuiu para fortalecer o comércio e a produção de bens de consumo, e só foi possível devido à consignação, que anula os riscos. Mas seus limites são evidentes e já foram alcançados. Além disso, não alcança os milhões de pequenos empreendedores que não possuem contra-cheque para consignar e que são, em última análise, a grande reserva dinâmica de criação de empregos neste país.
A principal contribuição do setor público, na questão do financiamento do desenvolvimento, foi a preservação e consolidação do sistema de fomento, representado pelos bancos federais e estaduais, que compõem a comunidade da ABDE. O que seria do investimento industrial, do comércio exterior, dos investimentos na agricultura e na infra-estrutura, no saneamento e na habitação, sem a presença do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal? Por outro lado, temos orgulho do Crediamigo, o programa de microcrédito do Banco do Nordeste; dos programas estaduais de microcrédito, de apoio a cadeias produtivas e APLs; e vemos, como grata surpresa, o rápido crescimento das cooperativas de crédito. Essas boas conquistas resultam de políticas públicas inteligentes, cabendo elogiar o trabalho do Banco Central pela agilidade com que produziu e adaptou o aparato normativo que tornou essas coisas possíveis.

EB O que acha das altas taxas de juros cobradas no Brasil? Isso não se torna um impedimento ou um entrave quando o assunto é concessão de crédito?

AC Sem dúvida é um impedimento, a principal explicação para a baixa penetração do crédito no Brasil. Mas, não é um problema que se resolva isoladamente. A trajetória das taxas reais (isto é, descontada a inflação) está diretamente ligada ao êxito da política econômica e das reformas.

EB Qual a importância dos financiamentos para o desenvolvimento do país?

AC Uma boa oferta de crédito e financiamento é essencial para os investimentos, que fazem a economia crescer e geram empregos e renda; além disso, o crédito é necessário para viabilizar as trocas econômicas no dia-a-dia. Há uma forte correlação entre sistemas financeiros eficazes e eficientes, de um lado, e desenvolvimento econômico, de outro. Essa evidência é produzida tanto pela teoria econômica quanto pela observação dos países ao longo do tempo.

EB Qual a receita para que o empréstimo não se torne uma bola de neve?

AC É preciso muita atenção ao contrair um empréstimo. A regra de ouro é utilizar os recursos de um empréstimo somente para desenvolver uma atividade que produza um retorno igual ou superior à taxa de juros do financiamento. Exceções a esta regra valem apenas para empréstimos de curto prazo, para aproveitar uma boa oportunidade, por exemplo. Isto vale para indivíduos, famílias e países. Cuidado redobrado impõe-se quando se financia o consumo corrente. Neste caso, o risco da bola de neve é muito maior, e o melhor mesmo é postergar o consumo e constituir uma poupança prévia, comprando à vista com desconto.

EB Como funciona e qual a estrutura da ADBE?

AC A ABDE congrega todas as instituições financeiras de fomento do país, além de algumas não-financeiras, como o Sebrae, a Finep e a Codin, no Rio de Janeiro. Portanto, nossa comunidade inclui os grandes bancos federais, os bancos públicos estaduais e regionais, como o BRDE, as Agências de Fomento e os Bancos de Desenvolvimento, além do Banco Cooperativo do Brasil – Bancoob –, e as outras instituições já citadas, totalizando 29 associados. Nossa entidade possui um Conselho de Associados e uma Diretoria, além de contar com Comitês Técnicos temáticos. As grandes linhas de atuação da entidade concentram-se na representação dos associados junto ao poder público (em todas as esferas e nos três poderes), além de uma grande ênfase nas atividades de treinamento e capacitação dos associados. O sistema de fomento precisa renovar-se e atualizar-se constantemente para estar à altura dos desafios que enfrenta. Os mercados e os produtos financeiros não param de evoluir e modificar-se, e o mesmo ocorre com as instituições que queiram sobreviver. O tempo dos “mercados cativos” e da acomodação já anda muito longe. Nossa entidade mantém, também, a revista Rumos, detentora de diversos prêmios de excelência, e reconhecida como respeitável fórum de debates sobre as questões do desenvolvimento.

EB Como funcionam essas parcerias (Sebrae, BNDES) e como elas podem beneficiar o empresariado?

AC Em relação ao BNDES, o sistema da ABDE oferece a capilaridade que falta ao nosso grande banco de fomento, aliás hoje um dos maiores do mundo. As instituições estaduais, sejam elas bancos de desenvolvimento, bancos comerciais estaduais públicos ou as novas agências de fomento, conhecem bem a realidade local nos estados, a estrutura empresarial, os Arranjos Produtivos Locais, etc. Não tenho dúvida de que são os melhores parceiros para ajudar o BNDES a concretizar suas metas, por meio do repasse de suas linhas. O potencial de parceria com o Sebrae também é enorme. Este último, conhece melhor do que ninguém o potencial e as dificuldades do pequeno e micro-empreendedor brasileiro. Falta-lhe o braço financeiro, que é o trunfo das instituições associadas à ABDE. Por isso, temos desenvolvido diversas iniciativas conjuntas, especialmente nas questões afetas ao acesso das MPEs ao crédito e a serviços financeiros.

EB Qual a posição da ABDE quanto aos Arranjos Produtivos Locais – APLs?

AC De forma resumida, penso que os APLs podem ser benéficos para os pequenos empresários, sobretudo. Entretanto, constato que existe um otimismo exagerado em torno deles. Os exemplos marcantes, da Itália e de outros lugares, têm sempre elementos culturais que não são fáceis de serem reproduzidos por aqui. Estamos em uma fase onde é importante avaliar o custo-benefício das políticas de desenvolvimento de APLs. Porém, quando bem sucedidos, eles facilitam o acesso ao crédito, a novas tecnologias, e costumam trazer reduções significativas dos custos fixos com armazenagem, transporte, comercialização, etc. O financiamento de APLs requer novos enfoques da parte dos analistas de crédito, pois os relacionamentos entre as empresas participantes pode tornar redundante a exigência de garantias, que são um dos maiores obstáculos ao acesso ao crédito. Por esta razão, a ABDE desenvolveu, em parceria com a DesenBahia (Agência de Fomento do Estado da Bahia), uma metodologia específica e inovadora para levar os financiamentos até as empresas que participam de APLs .

EB O que pensa sobre o sistema associativista do Brasil. A união é importante para crescer?

AC O associativismo é uma grande força, em qualquer país. Na Europa, o associativismo e o mutualismo (ajuda mútua, por exemplo, em forma de garantias para empréstimos) moldaram a sociedade e criaram um forte substrato solidário que não existe, por exemplo, nos países anglo-saxões. Vejo este movimento como a única esperança para alcançarmos uma sociedade mais justa e mais equilibrada, fator de sobrevivência para todos.


Em breve