:: Destaque


                                                                            Uma das primeiras do país

                     O dinamismo da Associação Comercial de Sergipe, mesmo passando por fases de apogeu e
     declínio, cumpre a missão empreendedora em busca do desenvolvimento e da modernização da comunidade


                                                                                               por DOUGLAS APRATTO TENÓRIO*


ada vive no presente imediato. Estamos sempre
acrescentando coisas e acontecimentos do passado à
memória pessoal e coletiva. Quando falamos, no presente, de uma instituição como a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil – CACB –, miramos não só as unidades que a formam hoje, mas toda a história dos que a fizeram. Lembramos das agremiações e dos homens que, com visão de vanguarda e pioneirismo, possibilitaram a sua formação. Homens que consolidaram idéias, lutaram contra os percalços, a descrença, o desânimo e as barreiras, para tornar um sonho realidade.
A Associação Comercial de Sergipe foi uma das primeiras do país a atender a convocação do Barão de Ibirocaí, em 1912, para criar a Federação das Associações Comerciais do Brasil. Esteve ao lado de suas congêneres do Amazonas, Espírito Santo, Ceará, Piauí, Bahia, Rio Grande do Sul, Pará, Alagoas, Paraná e da anfitriã do encontro, Rio de Janeiro que, com espírito de luta e determinação, viabilizaram a velha aspiração da classe empresarial brasileira. Hoje, ao se analisar a trajetória da Confederação, de suas conquistas e participação na vida do país, podemos dizer que todas fizeram história.
Anteriormente, a Associação Comercial do pequeno Estado nordestino já havia despontado com igual pioneirismo. Foi também uma das primeiras associações a serem criadas no século XIX, o que seria efetivado no dia 26 de maio de 1872, à frente, portanto, de muitos Estados poderosos e influentes, tanto do ponto de vista econômico como político. Somente a da Bahia, criada pelo Conde dos Arcos em 1811, a do Pará, Rio de Janeiro, Pernambuco, Porto Alegre e a de Alagoas, esta última em 1866, surgiram antes.
Como se deu a sua criação? Como se consolidou? Qual o panorama local e nacional da época? Como os empresários sergipanos cumpriram a sua função empreendedora, fundindo a aventura de seu povo em busca do desenvolvimento e da modernização? Qual o papel exercido pela entidade no Estado?
O século XIX foi de grandes mudanças no Brasil. Da abertura dos portos, do fim da era colonial e da independência da tutela portuguesa. O século da abolição da escravatura e da proclamação da República, das grandes transformações sociais e materiais. Da quebra do monopólio comercial português e da abertura da economia – influenciada pela presença britânica, que liderava os investimentos e a economia internacional.
A primeira associação comercial, a da Bahia, surgiu na esteira dessas transformações, como conseqüência da necessidade dos homens de negócios se organizarem em torno de uma entidade de classe para defender os seus interesses, que estavam em colisão com os valores tradicionais já “anquilosados”. Sessenta e um anos depois, uma ata assinalava que os ventos da modernização chegavam à antiga Sergipe del Rei.
“Aos vinte e seis dias do mez de maio do anno de mil e oitocentos e setenta e dois, nesta capital da Aracaju, da Província de Sergipe, no salão do ‘Gabinete Literário de Sergipe’, onde se achavam reunidos os sócios installadores da ‘Associação Comercial de Sergipe’, constantes do competente livro de registros de folhas três, sob a Presidência provisória de José Agostinho do Nascimento, procedeu-se à eleição por escrutínio, como determina o artigo vinte e dois dos Estatutos, para o fim de eleger-se de entre os sócios, os sete da Junta Diretora efetiva até o fim de dezembro do corrente anno”. A história de uma instituição não pode ser desvinculada do momento histórico em que ela é inserida. Além disso, ela é também, ao mesmo tempo, a história dos homens que a fizeram. Dos líderes que aparecem na origem dos sonhos. Antonio Martins de Almeida foi um desses pioneiros que acreditava em suas idéias e que com a sua determinação possibilitou, junto com seus companheiros, que o sonho se tornasse realidade. A ata registra os nomes dos indivíduos que compreenderam o momento histórico em que viviam naqueles idos de 1872 e viabilizaram a edificação de uma instituição que somasse forças e conscientizasse sobre a importância do papel do empresariado na sociedade sergipana. Foram eles, além de Antonio Martins de Almeida, Joaquim Carneiro Frião, José Joaquim Telles de Meneses, José Rodrigues Bastos Coelho, Adolfo Beke, Alcebíades Augusto Vilas-Boas, Francisco Xavier Bastos Coelho, Jacintho Martins de Almeida Figueiredo, Manuel José Rodrigues, Manoel José Teixeira, Thomaz Narciso Freire, Cândido José Martins Penna, Sizino Ribeiro Pontes, João Martins Júnior, Manoel Antonio da Conceição Júnior, João Victor de Mattos, Antonio Joaquim de Magalhães, Fernando Manuel de Barros, Euzébio Simpliciano de Campos, Joaquim P. F. de Andrade, Manoel Joaquim Fernandes da Luz, Antonio Alves Ramos, José Agostinho do Nascimento, Leandro Pires Branco e Martinho Jose de Lima Coelho.
Naquela ocasião, procedeu-se à eleição da Junta Diretora composta por sete membros que sufragaram os nomes de Antonio Martins de Almeida, Joaquim Carneiro Frião e José Joaquim Telles de Meneses como Presidente, Secretário e Tesoureiro, respectivamente, da recém-criada associação.
Não foi fácil a vida da nova entidade. A Província de Sergipe não possuía uma base econômica forte. Era fundamentada no algodão e no açúcar – produtos de exportação – e, em menor escala, na pecuária e nas lavouras de subsistência. As dificuldades superavam as boas iniciativas. A criação da Associação Comercial era uma injeção de ânimo no pessimismo reinante. Reclamava-se uma casa bancária, um porto moderno, estradas melhores, vias férreas, preços atraentes para a produção local, como havia para o valioso café do centro-sul.
Aracaju ainda não havia se consolidado como autêntico pólo hegemônico da província. Enfrentava os focos pestilentos que os muitos charcos e pântanos em seu redor produziam. Existiam apenas 51 casas comerciais, três boticas, oito padarias, os hotéis Globo e Maruim, várias estalagens e os edifícios públicos dos órgãos governamentais. Os quiosques e quitandas em torno do Mercado Público onde se realizava a grande feira semanal. Laranjeiras, Maruim e Estância disputavam a liderança econômica e demográfica, em muitos aspectos com vantagem.
Por que se criou, naquele momento, a Associação em Aracaju? A resposta mais provável é a necessidade que havia de consolidar-se como capital e centro administrativo e político, firmando-se também como centro empresarial, minimizando a histórica dependência da classe em relação à grande praça da Bahia. Enfrentar no próprio núcleo do poder político os graves problemas que afligiam os negociantes e a própria economia sergipana, influindo nas ações e nas estratégias traçadas para o desenvolvimento da província. Acompanhar a evolução do país, seguindo os passos de outras províncias que já tinham criado suas entidades. Exigir agilidade e eficiência nas ações governamentais. Por fim, organizar-se para defender os interesses dos comerciantes, dos pequenos industriais e dos agricultores locais.
Como dizia o Jornal de Aracaju, um ano depois de sua fundação: “uma sociedade composta de homens inteligentes, negociantes velhos e moços, em idade e mercancia, uns experientes e práticos, já experimentados em todas as peripécias de tão nobre quão árdua profissão”, lutando para superar dificuldades e alcançar os seus nobres propósitos em um ambiente provinciano e, muitas vezes, não receptivo às novidades e à modernização.
Assim é que as primeiras cinco décadas da instituição foram extremamente difíceis. Falta de recursos para aquisição de uma sede própria, pessimismo de alguns, divisão entre os sócios, paralisações e períodos de inatividade, crises políticas e econômicas no país afetando o comércio sergipano. A obstinação, o trabalho, o idealismo de alguns timoneiros foram superiores aos problemas. O comendador Cândido do Prado Leite sucedeu o pioneiro Antonio Martins de Almeida nos anos de 1873 e 1874. Outros continuaram a trajetória. Guilherme José Vieira, Daniel Caetano da Silva Campos, Estêvão Pereira Coelho, Jacintho Martins Almeida de Figueiredo, Guilherme José Vieira Filho, Joseph Dórea Neto, João Filizola Zuccharino, Manoel Teixeira Chaves de Carvalho, Sabino José Ribeiro e Manuel Maurício Cardoso, continuaram os esforços do primeiro Presidente, Antonio Martins de Almeida, conduzindo-a, de 1871 a 1922, a porto seguro, implantando uma estrutura funcional, a despeito dos fortes ventos e tempestades enfrentadas.
Nessa primeira fase, de tantas dificuldades – que foram superadas com a pertinácia e o descortino dos pioneiros –, a instituição foi implantada e organizada, ultrapassando as diversas crises que atravessou. Procurou atrair os melhores nomes ligados ao empresariado sergipano. Criou comissões regionais em Laranjeiras, Maruim e Estância; adquiriu, em 1885, uma casa na Rua São Cristóvão para dotar a instituição de sede própria; reformou os estatutos em 1888; lutou pela redução dos impostos que oneravam o comércio e o consumidor pela elaboração de orçamentos governamentais realistas e contra as irregularidades com que as mercadorias eram entregues pelos vapores da companhia de navegação baiana. Por ocasião do terrível surto de gripe espanhola, em 1922, prestou serviços de alta relevância custeando o tratamento e a alimentação dos doentes pobres e dividindo a cidade em sete postos de socorros, em um trabalho abnegado diário de seus diretores, que mereceu o reconhecimento da comunidade. Mas, “corsi e ricorsi”, nessa fase muitas crises internas também aconteceram: divisão, inércia, indiferença de alguns membros. O período que vai de 1922 a 1972 foi de revitalização e consolidação da entidade. Outros momentos penosos se repetiram. Os tempestuosos anos do crash internacional, do tenentismo, da radicalização ideológica, do Estado Novo, da II Grande Guerra, afetaram a economia mundial. Uma unidade federativa pequena como Sergipe não poderia ficar imune a essas mudanças. O Brasil se modernizava, deixando de ser eminentemente agrário e passando a experimentar o gosto da industrialização. A Associação Comercial de Sergipe vivia essa nova conjuntura. A adequação da entidade ao novo momento e ao ritmo novo de progresso do Estado era imperiosa. A contribuição dos sócios era pequena e uma campanha intensa para atrair novos quadros foi feita. O Presidente Manoel Maurício, em relatório de sua gestão, em 1931, registrou os efeitos positivos de campanha que revitalizou a instituição e melhorou consideravelmente o seu patrimônio.
Os associados que pertenciam à classe dos proprietários rurais, à burguesia industrial a ao comércio deram a sua contribuição para atravessar este período tão turbulento, estabelecendo uma linha divisória entre os interesses da entidade e a política. Ao mesmo tempo, desfecharam uma campanha para construir uma sede mais ampla, à altura dos tempos novos. Firmas comerciais, bancos, empresários e o Governo do Estado atenderam ao chamado da associação e a obra saiu. A construção do edifício, que custou 105:000$000, teve a planta assinada pelo engenheiro Arthur de Araújo e o plano arquitetônico foi do artista italiano Belando Belland. A inauguração, muito concorrida, em 13 de agosto de 1926, contou com a presença do Presidente da República, Washington Luís. O imponente prédio é uma parte da história de Aracaju e de Sergipe e retrata o dinamismo de uma associação que, mesmo passando por fases de apogeu e declínio, consegue, como uma fênix, sempre renascer das tribulações sazonais, cumprindo a sua missão empreendedora em busca do desenvolvimento e da modernização da comunidade.


*Douglas Apratto Tenório é doutor em história pela Universidade Federal de Pernambuco e membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas


Em breve