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Pólos & APLs:
Portas abertas ao desenvolvimento
Mesmo com dificuldades, as cidades de Ubá, em Minas Gerais, e Tobias Barreto, no Sergipe,
ganham pólos e se transformam em direção ao crescimento
Por
CLEONILSON ALVES DA SILVA*
São difíceis os caminhos para o desenvolvimento. Os atalhos – na maioria das
vezes – revelam-se inviáveis. A criação de programas de desenvolvimento
dissociados da “vocação” do lugar ou da região requer, para seu sucesso, maciços investimentos públicos e, seu custo-benefício apenas é aceitável em se tratando de projetos estratégicos que mudem radicalmente a face territorial de sua abrangência.
A consolidação de um pólo de desenvolvimento nestas circunstâncias demandaria, além de formidáveis recursos financeiros, a institucionalização de uma rede de similaridades tanto culturais como econômicas, capaz de criar o sentimento coletivo de coesão e mudança, essencial em projetos desse tipo.
Um longo e penoso processo de falta de planejamento (nas últimas três décadas) provocou o desperdício de milhões de reais investidos em projetos de criação de pólos de desenvolvimento. O voluntarismo e o populismo, dominantes nesse período, inviabilizaram iniciativas louváveis de desenvolvimento em várias cidades brasileiras. Ao desconhecimento do comportamento do mercado, juntou-se a precariedade da infra-estrutura e a escassez de mão-de-obra especializada, fundamentais para garantir a consolidação de projetos dessa natureza, e o resultado não poderia ser outro: o fracasso.
O dinamismo e o crescimento apresentado pelo pólo de Ubá é baseado na criação de pequenos e microempreendimentos familiares – esse processo duraria até meados da década de 90. A adoção de novas tecnologias e a dificuldade de acesso ao crédito para as pequenas empresas fez encolher o número de empresas: de 470 para cerca de 400 atualmente. Ainda assim, cerca de 95% do total que forma o pólo é composta de micros e pequenas empresas (apenas uma, teria mais de 300 emprega-dos). Na Itália, onde o setor moveleiro é um dos mais importantes do mundo, com tradição de vanguarda em design e tecnologia de ponta, a grande maioria das empresas também é formada pelas micros e pequenas. Lá, no entanto, a produção é compartimentada: cada empresa é especializada em elaborar determinadas partes e uma empresa monta o produto final. Em Ubá, todo o processo é realizado por uma única empresa. A produção do pó-lo é diversificada (móveis, camas, guarda-roupas, berços, móveis tubulares, armários de cozinhas) e já começa a conquistar espaço no mercado internacional. Por meio de um trabalho conjunto do Sebrae e da Agência de Promoção de Exportações do Brasil – APEX –, foram realizados encontros, palestras e cursos para os moveleiros de Ubá, com o objetivo de capacitá-los para encarar o desafio da exportação. Paralela-mente, foram incentivadas e promovidas visitas as principais feiras internacionais de móveis. O próximo passo foi a criação, em 2001, da Associação dos Exportadores de Móveis de Ubá e Região (Movexport), e que hoje vende para países tão diferentes como Estados Unidos, Emirados Árabes, Chile, Catar, Venezuela, Espanha, Angola, México, Costa Rica e Uruguai. Em 2004, a Movexport realizou vendas que totalizaram cifras em torno US$ 1,2 milhão; as estima-tivas para este ano são ainda mais promis-soras: a Movexport espera vendas no mínimo 30% superiores. “Este Arranjo Produtivo Local, pólo moveleiro de Minas Gerais, que exporta e é exemplo para o Brasil, nasceu de um núcleo do Projeto Empreender”, lembra Arthur Lopes Filhos, Presidente da Federaminas.
Atentos às exigências tanto do mercado interno quanto do externo, no que se refere a qualidade, a diversificação de produtos e principalmente ao design, os moveleiros de Ubá promoveram durante a 6ª Feria da Tecnologia Moveleira – Femap – (realizada entre os dias 7 e 10 de junho), o Salão Experimental (com a participação fornecedores, escolas de design, estudantes e profissionais da área), iniciativa do Núcleo de Design de Mobiliário de Ubá. O objetivo do Salão Experimental é colocar Ubá na vanguarda da atividade moveleira no Brasil e torná-lo referência na utilização de novas formas de design e uso de materiais.
Desafios atuais
Manter as empresas moveleiras de Ubá competitivas é garantir a consolidação e ampliação da oferta de empregos e do aumento da renda da região. O Sebrae, um dos principais incentivadores do APL de Móveis de Ubá, estabeleceu como metas até dezembro de 2006, elevar em 32% o volume de vendas; 9% o número de pessoas ocupadas; 14% a produtividade da mão-de-obra (número de peças produzidas por trabalhador); 70% o faturamento da produção anual exportada; e reduzir em 90% o prazo de entrega e em 30% o custo médio de transporte de produto (tomando como referência, o mês de dezembro de 2003). Para tanto, estabeleceu algumas premissas para que as metas possam ser alcançadas: ambiente econômico favorável (taxa básica de juros declinante, inflação sob controle, câmbio competitivo, dentre outros); capacitação de empresas para o mercado externo; melhoria do processo produtivo; compartilhamento do transporte e certificação de produtos; acesso ao crédito; capacitação em gestão empresarial; capacitação da força de trabalho; fortalecimento dos fornecedores da cadeia local; melhoria da infra-estrutura; eficiência ambiental; fortalecimento da cooperação e articulação interna e externa e desen-volvimento de alternativas de suprimento de madeira. Outro fator que deve impulsionar o pólo moveleiro de Ubá é a construção do Aeroporto de Goianá (distante 68 km de Ubá), que contará com terminais de cargas, facilitando não apenas o escoamento da produção para o mercado internacional, como o armazenamento da matéria-prima. Lopes Filho, da Federaminas, lembra que o pólo, pelo caráter industrial que possui, é assessorado pela Federação das Industriais do Estado de Minas Gerais e que, segundo ele, “tem todo o incentivo, mas sem perder o vínculo com a Associação Comercial de Ubá”.
Tobais Barreto, Sergipe: Pólo de confecções
Durante o século XIII, em Campos (antigo nome de Tobias Barreto) a pecuária era a principal atividade econômica e a exportação de couro era o topo do processo. Ainda hoje, o município possui uma das maiores feiras de gado de Sergipe. Contudo, a partir da década de 1970, o comércio de confecções começou a se destacar, embora esta atividade remonte a década de 40. Além das confecções, os bordados (Ponto Crivo, Richelieu e Cheio) são reconhecidos nacionalmente.
Em abril de 2002, foi realizado um levantamento por meio da Pesquisa do Setor Têxtil – Confecções de Tobias Barreto, realizado pelo Sebrae/SE, onde foram identificados 1.319 empreendimentos ligados ao setor de confecções (sendo 90% informais), dos quais, 1.015 se dedicavam a elaboração de confecções. Entre os comerciantes, dos 618 estabelecimentos identificados, 299 se dedicavam apenas a atividades comerciais (vendas de tecidos, confecções ou aviamentos).
Atividade predominantemente familiar, comandada pelos proprietários com o apoio de familiares ou um número pequeno de empregados: 60% dos estabelecimentos ocupavam apenas uma pessoa e em 91% deles, até quatro. Nesta cidade de pouco mais de 46 mil habitantes (estimativa de 2004), a pesquisa identificou 3.832 pessoas ocupadas diretamente na fabricação e/ou comercialização de confecções. Em 38% das empresas pesquisadas, o número de pessoas ocupadas não passava de 10; em 78% delas, ocupava no máximo 19. Apenas dois estabelecimentos ocupavam mais de 50 pessoas.
Nos estabelecimentos dedicados unicamente a fabricação, o índice de formalização é insignificante; enquanto naqueles que fazem as duas coisas (fabricam e comercializam), não chega sequer a 10% do total. Enquanto nas lojas, dois terços dos estabelecimentos são formais, nas demais unidades de comercialização (bancas, residências e ambulantes) a informalidade é total. Se levarmos em consideração que durante a realização da pesquisa foram identificados 294 bancas, 106 residências, 55 boxes, 148 lojas e nove ambulantes, chegaremos ao total de 632 postos de vendas e desse total, cerca de 80% dos postos de vendas são informais. Além disso, o principal canal de escoamento da produção de confecções de Tobias Barreto são as bancas (mais de 50% dos pontos de comercialização), o que consagra a tradicional Feira da Coruja, como o principal escoadouro do pólo.
Na Feira da Coruja é possível encontrar desde artigos de cama e mesa, como lençóis, colchas, toalhas, até produtos de vestuário, como shorts, camisetas, bermudas, saias, vestidos e conjuntos infantis. Cerca de 85% da produção é absorvida majoritariamente por consumidores de outras cidades de Sergipe, enquanto14% são consumidas pelos mercados dos demais estados nordestinos e apenas 1% são direcionados para outras regiões do país. Estima-se que o total produzido pelas unidades produtoras de confecções de Tobias Barreto, alcance o montante de cerca de 877 mil peças mensais.
De Tobias Barreto para o mundo
O principal setor em ocupação de mão-de-obra em Tobias Barreto é o industrial e, dentro dele, dois terços dos postos de trabalho estão vinculados ao pólo de confecções (costureiras, comerciantes, fornecedores de insumos, técnicos em manutenção de equipamentos e pessoas vinculadas a estamparias e adereços). O faturamento mensal é de R$ 2,8 milhões. Embora hoje esteja limitado ao município de Tobias Barreto, o pólo de confecções deverá ser ampliado para todo Agreste de Sergipe.
O projeto Promos/Sebrae selecionou quatro pólos de desenvolvimento para oferecer suporte técnico: o Pólo Madeireiro e Mobiliário de Paragominas (Pará); o Pólo de Couro e Calçados de Campina Grande (Paraíba); o Pólo de Moda Íntima de Nova Friburgo (Rio de Janeiro) e o Pólo de Confecções e Artesanato de Tobias Barreto (Sergipe).
O nome Promos identifica a presença internacional via a Agência Promos, da Câmara de Comércio, Indústria e Artesanato de Milão, na Itália, entidade dedicada à atividades para a internacionalização das médias e pequenas empresas.
O objetivo geral do projeto é promover a interiorização do desenvolvimento, tomando como base a rede de micros e pequenas empresas já existentes numa determinada localidade, através do estabelecimento de uma metodologia fundada na experiência italiana de organização de distritos industriais.
Em suma, procura-se agregar as empresas já existentes a noção de inserção competitiva ampla no mercado. Ao invés da visão de mercado regional (às vezes única), a visão de mercado nacional e internacional, que por sua vez, carrega a necessidade da especialização, da melhoria da qualidade do produto, da adoção de inovações tecnológicas, de novos paradigmas de gestão e da necessidade de troca de informações entre os concorrentes.
No caso, do Pólo de Confecções de Tobias Barreto, o projeto busca sua consolidação e sua transformação num pólo exportador para o mercado nacional e internacional, por meio da qualificação da mão-de-obra e da adoção de tecnologia de ponta. No documento já referido, projeto Promos/Sebrae/Bid, é feita uma avaliação do Pólo de Confecções de Tobias Barreto, e identificados os pontos fortes (ambiente político institucional favorável; razoável sinergia com oferta de expertise lombarda; geração de emprego, trabalho e renda; predominância de micro e pequenas empresas e sistema de educação profissionalizante, dentre outros), as debilidades (inexperiência dos empresários na identificação de mercados potenciais; ineficiência empresarial coletiva; reduzido número de lideranças empresariais; dificuldade de acesso ao crédito; dentre outras), os pontos fracos (concorrência no NE, em especial do Ceará; concorrência de produtos chineses e nível tecnológico baixo das empresas vis-à-vis a concorrência) e as, oportunidades (produtos atuais de qualidade para o mercado doméstico); desenvolvimento do mercado com apoio do Sebrae/Promos; programa de desenvolvimento setorial integrado com apoio APEX; apoio do BNDES e BNB; desenvolvimento institucional do Senai-Aracaju, como ponto focal para transferência de know-how italiano e investimentos diretos das empresas lombardas na região.
Tradição: sinônimo de desenvolvimento
Nos últimos anos, observou-se uma tendência – forçada, sobretudo, pela escassez de recursos – de se ampliar a cooperação entre as instituições de fomento ao desenvolvimento, tanto públicas quanto privadas, mobilizando até parceiros internacionais. A racionalização de recursos propiciou, por outro lado, a necessidade de obtenção de resultados concretos e necessários para que as políticas públicas compensatórias pudessem ter eficácia.
Assim é que os projetos mirabolantes – cuja temática seria o da redenção de cidades ou mesmo de regiões estaduais – foram sendo deixados de lado. Ao mesmo tempo, pólos tradicionais em várias localidades brasileiras passaram a receber atenção e começaram a passar por transformações na direção de sua consolidação, aumento da competitividade e conquista de novos mercados. É emblemático que, depois de um período recente de gestação, os Arranjos Produtivos Locais – APLs – tenham sido incorporados oficialmente como política pública, ao ponto de figurarem no Plano Plurianual (2004-2007).
Se bem que deva ser mencionado o fato que dos embriões de APLs espalhados pelo Brasil, “a origem da quase totalidade desses arranjos ser completamente autônoma, baseada em construções ad hoc, por meio do aproveitamento de vantagens territoriais que permitiram o surgimento de estruturas produtivas razoavelmente especializadas, com um número significativo de empresas. Quase nenhum desses processos foi baseado em políticas de incentivo público. A especialização regional, verificada na grande maioria dos territórios, foi consolidada antes de ter-se tornado objeto de atenção por parte dos atores públicos. As exceções, como o caso do Cluster da indústria de aviação em São José dos Campos, que recebeu forte impulso estatal desde sua origem, confirmam a regra. Os APLs, em geral, nasceram à margem do Estado, e o grande ‘benefício’ que receberam foi, provavelmente, o esquecimento por parte das estruturas de fiscalização tributária e trabalhista”, como reconhece o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – Sebrae –, no documento Metodologia de Desenvolvimento de Arranjos Produtivos Locais: Projeto Promos/Sebrae/BID.
Ubá, Minas Gerais:
Pólo Moveleiro
Ubá, de forte colonização italiana, situada na Zona da Mata mineira, conta com atualmente cerca de 75 mil habitantes, Até recentemente, era conhecida apenas como terra natal do grande compositor Ary Barroso (autor, dentre outras músicas, de Aquarela do Brasil). Atualmente, é reconhecida como sendo o terceiro maior pólo moveleiro do Brasil (o primeiro é o da Serra Gaúcha e o segundo o do Norte do Paraná). São cerca de 400 micro e pequenas empresas moveleiras, mais de 100 fornecedores e mais de 40 lojistas, gerando em torno de sete mil empregos diretos, correspondendo a 74% dos postos de trabalho do município e 70% da arrecadação de impostos.
Município originalmente agrícola (primeiro o café, depois o fumo, cereais, tomate, pimentões, cebola, batata, manga, dentre outros), foi migrando para a indústria moveleira, que já ocupa a principal posição econômica local. O início dessa mudança é geralmente associado ao fechamento da indústria de móveis Dolmani, ainda nos anos 1970. Parte dos funcionários demitidos teriam usado a experiência adquirida naquela fábrica para abrir pequenos empreendimentos. Segundo dados do IBGE, já seriam mais de 20 no final da década e mais de 70, no início dos anos 80.
*Cleonilson Alves da Silva é economista
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