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Fuzil camarada?

                                                                                                                       por ENIO LINS

Aimprodutividade e o fraco design são considerados símbolos do derrotado modelo (industrial) soviético – isso ainda no tempo da URSS. Afora os primeiros e espetaculares momentos do êxito vermelho na corrida espacial, donde o Sputinik ainda é um ícone da história da tecnologia moderna e do desenho industrial, quase nenhum outro sucesso pode ser encontrado com facilidade (os veículos, então, viraram referências de feiúra e atraso). Mas, indubitavelmente, um produto conquistou preciosa fatia do mercado global – isso ainda no tempo da velha União Soviética – e seguiu na liderança depois da implosão rubra. Esse objeto do desejo (de atiradores e amantes de armas em todo mundo) é o fuzil de assalto AK47 (automatov kalashinikov 1947).
Mikail Kalachinikov, oficial do exército vermelho e projetista de armas, criador do instrumento fatal que leva seu nome como marca, é o co-autor do livro, por meio de seus depoimentos à escritora Elena Joly.
O trabalho é uma rara oportunidade de se estudar o intrincado processo de construção e demolição da hoje histórica experiência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, particularmente a partir do complexo e sofrido período stalinista. Mikail Kalashinikov viveu todos os sofrimentos e glórias daqueles tempos, dos campos de exilados na Sibéria aos píncaros do poder como Herói da Pátria, passando pela II Grande Guerra e por todos os expurgos – e, para decepção dos admiradores das frases feitas, o ancião não desdenha nem repudia o passado vermelho, fugindo dos lugares-comuns dos inúmeros livros sobre os tempos soviéticos.


Câmara e mesa

Deliciosa leitura: História da Alimentação no Brasil, do mestre Luiz da Câmara Cascudo. Uma das marcas da alma, ou das almas, de um povo é a sua alimentação. Os pratos e os modos de os fazer são parte indispensável da história de quaisquer comunidades – ali, nas receitas (antes orais) rabiscadas em cadernos de beira de fogão, vão desfilando trajetórias de vida, migrações, assimilações de povos e culturas distintas.
O que pode pretender ser chamado de culinária brasileira é uma rica colcha-de-retalhos onde o processo de invenção do Brasil vai sendo costurado cotidianamente (como em qualquer outro país e suas culinárias).
Gilberto Freire também deixou suculentas páginas sobre a alimentação no Brasil, mas foi o potiguar Câmara Cascudo quem procurou sistematizar de forma mais ampla todo essa riqueza da mesa brasileira (mesmo em locais onde a pobreza fixou endereço, como nos sertões e grotões do país).
História da Alimentação no Brasil (primeira edição, 1967/1968, pela Companhia Editora Nacional), em boa hora está reeditado pela Global Editora, e pode ser encontrado nas melhores livrarias ou pela Internet. Confira.





                                                                                    Alfarrábio


O homem do país do futuro

Stefan Zweig ainda é um homem cuja história desperta atenções e pesquisas. Fugindo da ameaça de morte pelo nazismo, esse escritor judeu chegou a nosso país, onde se entusiasmou de tal forma que produziu a obra Brasil, País do Futuro (definição que virou uma espécie de anátema, ou condenação a algo radioso sempre reservado ao amanhã). Zweig (e sua mulher, Lotte) não quis esperar esse futuro e suicidou-se, em Petrópolis, em 1942, deprimido por um presente onde o Estado Novo passava a se assemelhar ao estado de coisas que o fez deixar a Europa tomada pelo anti-semitismo. Momentos Decisivos da Humanidade é uma das obras mais interessantes desse escritor nascido em Viena, e relata uma dúzia de histórias onde o acaso ordinariamente se pronuncia para determinar mudanças radicais nas vidas das pessoas e na própria História. É um desses livros que vale a pena ler de novo. Creio que a última edição dele data de 1999, publicado pela Record (284 páginas), e merece ser buscado pelos sebos da vida.



Mestre Graça

Graciliano Ramos, um dos maiores escritores em língua portuguesa, é referência de sempre na cultura do Brasil. A vida de Graciliano não foi nada fácil, marcada por apertos sociais na infância e sufoco político na maturidade. Mas a obra do Mestre Graça nada tem de seca, é fértil e abundante em conteúdo, em qualidade.
No que pese sua obra ser razoavelmente bem conhecida dos brasileiros (o especial A Terra dos Meninos Pelados, produzido e veiculado pela Rede Globo, é uma das mais recentes demonstrações da atualidade dos escritos de Graciliano), a vida do escritor é ainda pouco visitada, e vez por outra, vitimada por ciúmes persistentes e preconceitos ideológicos.
Para se conhecer um pouco mais do homem e cidadão Graciliano Ramos, um dos melhores caminhos é o livro O Velho Graça, biografia da lavra do escritor e jornalista carioca Dênis de Moraes. Editado em 1992, pela Livraria José Olympio Editora, certamente ainda pode ser garimpado, com sucesso, nos melhores alfarrábios, ou pela Internet.





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