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                                                                               A celebração da inocência

                                                                                                                   por MOACYR SCLIAR*
                                                                                                                 

A festa não é só a festa. A festa é a festa e mais alguma coisa. A festa é um recado que os grupos humanos dão a si próprios. Atrás dos risos, dos cantos, das danças, existem ocultas mensagens, existe um sutil significado. Carnaval é cair na gandaia? Pode ser. Mas Carnaval também é colocar o mundo de pernas pro ar. O pobre vira nobre, o homem vira mulher. Uma transitória subversão da ordem que torna mais suportável o resto do ano.
Como o Carnaval, as festas juninas originaram-se de festividades pagãs e estavam ligadas às práticas agrícolas. No hemisfério Norte, junho, mês em que se inicia o verão, era também a época da colheita, comemorada com música, dança, muita comida e bebida. A fogueira, aí, desempenhava um papel importante. Do ponto de vista prático, iluminava o cenário da celebração e espantava as feras. Do ponto de vista simbólico, representava a paixão, mas era também um elemento purificador. Como aconteceu com outras práticas pagãs, o cristianismo associou-a à religião, sob a forma da celebração de santos: São João foi o primeiro, introduzido no século 6 e, a ele, os portugueses acrescentaram, no século 13, São Pedro e Santo Antônio. Religiosidade à parte, o que predomina é mesmo o festejo com todos seus componentes: a fogueira (especialmente gigantesca em Caruaru) e os fogos de artifício, a canjica, o quentão, o milho verde, a batata doce, a pipoca. As brincadeiras, como o pau-de-sebo. As encenações, como o bumba-meu-boi (o de Parintins é famoso). As danças, como a quadrilha que, originária da França, chegou ao país no século 19, trazida pela corte de D. João VI, e foi incorporada pelo povo inclusive com abrasileiramento dos termos: “anarriê” por “en arrière”, para trás, “anavã” por “en avant”, em frente, “changedidame”por “changer de dame”, trocar de dama, “otrefuá” por “autre fois”, outra vez.
Ah, sim, e os sortilégios. Aqui temos o componente mágico das festas juninas. Vou casar? Com quem vou casar? E assim por diante. (Como obter respostas? No caso da primeira, pergunta, coloque duas agulhas em um prato com água, à meia-noite, do dia 12 para o dia 13 de junho. Se amanhecerem juntas, o casamento está garantido. No caso da segunda pergunta: coloque um papel branco sobre a fogueira de São João, rezando uma Salve Rainha. O desenho feito pela fumaça corresponde ao rosto da pessoa com quem você vai se casar.) O grande personagem das festas juninas – protagonista inclusive do casamento na roça – é o caipira. E no caipira, temos o sentido maior das festas juninas: elas são uma celebração da inocência, a inocência que era o característico maior deste país quando ele foi descoberto pelos portugueses e que se manifestava inclusive na despreocupada nudez dos indígenas. Como o índio, o caipira é comovente na sua ingenuidade, na sua credulidade. Ele acredita em tudo. Ele é aquele que comprava bondes em Minas, ele é aquele que cai em todos os contos do vigário. Do caipira não se pode esperar nepotismo, muito menos corrupção ou desvio de verbas públicas. Caipira é a velhinha de Taubaté, do Veríssimo, aquela que acredita em todas as histórias contadas pelos políticos. Caipira é o também o Jeca Tatu, doente, minado pelos vermes, mas conformado com sua sorte.
Pergunta: mas será que existe mesmo esse tipo? Ao menos uma vez por ano ele existe. Uma vez por ano ele é recuperado dos arcanos da tradição e reapresentada ao público brasileiro, com seu chapéu de palha, seus dentes falhados (existe a “boca” brasileira, mas também existe a boca banguela), seu casaco amassado e apertado, suas calças curtas deixando as canelas à mostra, suas botinas ringideiras, para usar a expressão de Lobato.
É bom recuperar a inocência, assim como é bom retornar á infância. Mas é bom fazer isto só de vez em quando. Porque, na maior parte do tempo é a realidade mesmo que temos de enfrentar, é o nosso próprio destino que temos de enfrentar. E aí, não adianta colocar agulhas na água para ver se elas se encontram. Temos de botar o nosso voto na urna e o nosso olhar no futuro. É lá que o pobre caipira encontrará, enfim, a sua chance de ser feliz.


*Moacyr Scliar é escritor e médico, membro da Academia Brasileira de Letras, autor de 70 livros (ficção, crônica, literatura infanto-juvenil), muitos dos quais premiados e vários traduzidos. É colaborador de jornais e revistas do país e do exterior

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